TEMAS PRIORITÁRIOS
Saúde pública e hesitação vacinal
A desinformação em políticas de saúde pública representa um desafio crescente, especialmente no campo da vacinação. A circulação de boatos, teorias conspiratórias e conteúdos pseudocientíficos mina a confiança da população em campanhas de imunização, contribuindo para a queda na cobertura vacinal e o ressurgimento de doenças antes controladas. Essa desinformação se espalha majoritariamente pelas redes sociais e aplicativos de mensagens, muitas vezes impulsionada por atores políticos, influenciadores e grupos organizados com interesses ideológicos ou econômicos.
O caso da COVID-19 evidenciou esse fenômeno em escala global, mas ele também afeta políticas ligadas à saúde reprodutiva, vacinação infantil e uso de medicamentos, exigindo respostas integradas de comunicação pública, regulação digital e educação em saúde. Estudo publicado na Revista da Fiocruz (acesse) analisou o fenômeno da hesitação vacinal no Brasil durante a pandemia, especialmente em relação à vacina contra a COVID‑19. A partir de uma cartografia das divergências entre porta-vozes sociais, o estudo destaca que a hesitação vai além da simples recusa à vacinação, envolvendo uma complexa disputa discursiva. Além disso, evidencia que as políticas públicas enfrentam desafios significativos para reconquistar a confiança da população, uma vez que a discordância entre especialistas, autoridades e sociedade acaba reforçando a desconfiança coletiva.
Meio ambiente e negacionismo climático
Segundo as Nações Unidas, a desinformação climática é uma ameaça urgente que "mina a confiança pública na ciência climática, reduz o apoio às políticas climáticas necessárias e adia ações críticas em um momento decisivo para o planeta" (ONU, 2022). Eventos internacionais recentes, como a COP 28, também alertaram que lobistas da indústria fóssil, empresas de relações públicas e outros grupos de interesse têm promovido narrativas que buscam atrasar medidas urgentes, transferir responsabilidades, dividir sociedades e criar pessimismo em torno das soluções climáticas. Essas práticas não só confundem a opinião pública, mas têm retardado a implementação de políticas fundamentais para enfrentar a crise climática global. O enfrentamento à desinformação climática é essencial em um contexto em que o Brasil se prepara para sediar a COP 30, em Belém, no coração da Amazônia. Nosso trabalho busca compreender as estratégias sofisticadas de campanhas de desinformação sobre mudanças climáticas, que distorcem o debate público e enfraquecem ações pela preservação do meio ambiente.
Gênero, machosfera e discurso de ódio
A desinformação de gênero se articula a discursos de ódio para reforçar estigmas e atacar políticas públicas. Investigamos como essas narrativas afetam mulheres, pessoas LGBTQIA+ e grupos historicamente marginalizados, desde uma perspectiva interseccional.
Isso significa considerar como diferentes marcadores sociais — como raça, classe, sexualidade e território — se articulam na produção e circulação de narrativas desinformativas. A pesquisa busca entender como esses discursos na esfera digital, particularmente na chamada 'machosfera', onde se reproduzem, reforçam e radicalizam discursos misóginos e masculinistas.
A compreensão da machosfera é urgente porque suas dinâmicas não ficam “só online”: produzem efeitos de silenciamento, assédio coordenado e erosão da integridade informacional, com impactos na participação cívica de mulheres e pessoas LGBTQIA+. Em 2025, os 16 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência contra as Mulheres destacam justamente a violência digital, alinhando-se a evidências de alta prevalência de assédio online (Plan International, 2020) e à necessidade de respostas integradas entre plataformas, políticas públicas, educação midiática e apoio psicossocial (ONU Mulheres, 2025a).
Democracia e eleições
A desinformação em processos democráticos representa uma ameaça estrutural à integridade eleitoral e à confiança nas instituições. Narrativas falsas ou manipuladas são frequentemente utilizadas para desacreditar candidatos, distorcer fatos, semear dúvida sobre a lisura do sistema eleitoral e enfraquecer a credibilidade de órgãos públicos, como tribunais e autoridades eleitorais. Esse fenômeno se intensifica durante períodos eleitorais, quando a disseminação de boatos, deepfakes e teorias conspiratórias — muitas vezes amplificadas por redes sociais e aplicativos de mensagens — busca mobilizar emoções e polarizar o debate público. Além de influenciar diretamente o comportamento do eleitorado, a desinformação contribui para o descrédito da democracia representativa, alimentando o ceticismo em relação aos resultados das urnas e fomentando discursos antidemocráticos. O caso brasileiro, sobretudo a partir das eleições de 2018, tem se mostrado emblemático da atuação coordenada de atores políticos e digitais no uso estratégico da desinformação como ferramenta de disputa de poder.