COMO ATUAMOS
DESORDEM INFORMACIONAL
Chamamos de desordem informacional (Wardle & Derakhshan, 2017) o conjunto de conteúdos enganosos e manipulativos — de falsidades e distorções a propaganda, teorias da conspiração e discursos de ódio — entendidos dentro de um ecossistema que envolve produção, circulação e impacto. Em vez de tratar o problema apenas como questão de “informação e tecnologia”, enquadramos a desordem informacional como um fenômeno sociomaterial, moldado por infraestruturas digitais, estruturas sociais, dinâmicas institucionais e projetos ideológicos.
Nosso marco analítico é o Ciclo da Desordem Informacional (Ricard et al., 2025), que observa quatro dimensões interdependentes: (1) condições contextuais que facilitam a propagação; (2) agentes e seus interesses; (3) táticas e narrativas (no digital e fora dele); e (4) impactos sobre opinião pública, políticas e democracia. Esse ciclo nos permite conectar o que acontece online às consequências concretas no mundo offline.
MÉTODOS MISTOS
A pesquisa combina métodos quantitativos e qualitativos para captar escala e sentido. De um lado, realizamos extração e análise de dados em plataformas digitais (com ênfase em Telegram, pela centralidade em ecossistemas conspiratórios) para medir volumetria, engajamento, picos temporais e redes de circulação. De outro, conduzimos análise crítica do discurso, inspirada em STS (Estudos de Ciência e Tecnologia) e na virada argumentativa em Políticas Públicas, para entender como as narrativas são estruturadas, legitimadas e mobilizadas em disputas sociais.
TelegramScrap
A extração dos dados é realizada por meio da ferramenta TelegramScrap (Silva, 2023), desenvolvida como software livre e de código aberto. Essa iniciativa integra um projeto que contempla múltiplos temas relacionados a comunidades de teorias da conspiração no ambiente digital. O processo fez uso da API do Telegram, via biblioteca Telethon, para coletar dezenas de milhões de conteúdos de grupos e canais abertos (sem violar a Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais - LGPD), ampliando a base de dados ao longo dos meses por diferentes estratégias. Após a coleta, os dados passam por um processo de classificação das comunidades com base em título e descrição, permitindo a organização em categorias temáticas, como “Antivacinas”, “Mudanças Climáticas”, “QAnon”, “Reptilianos”, “Nova Ordem Mundial”, entre outras. Essa categorização viabilizou uma compreensão mais estruturada da diversidade de narrativas conspiratórias no Telegram, oferecendo um mapa inicial das formas de desinformação circulantes. Para cada análise, são selecionadas exclusivamente as publicações em comunidades de teorias da conspiração, a través do uso de palavras chave. A partir desse recorte, é possível calcular métricas específicas de volumetria, engajamento e alcance.
Análise crítica do discurso e STS
A análise crítica do discurso é aplicada para identificar estratégias retóricas, construção de narrativas e posicionamentos ideológicos presentes nas mensagens. Utilizamos referenciais como os de Bruno Latour e Michel Callon sobre a construção social do conhecimento científico para entender como a ciência é contestada em arenas públicas e como narrativas alternativas (De Melo; Broietti; Salvi, 2021; Baker; McLaughlin; Rojek, 2024), como as antivacina, ganham força, muitas vezes através da ação de grupos incivis que contestam a legitimidade do conhecimento científico estabelecido (Prasad, 2022).
Virada argumentativa em Políticas Públicas
A abordagem argumentativa (Fischer; Gottweiss, 2013) para analisar como discursos antivacina são construídos, disseminados e legitimados, influenciando tanto a opinião pública quanto as decisões políticas (Elkin; Stubbe; Pullon, 2023). Essa perspectiva é crucial para entender a competição de narrativas no espaço público e seu impacto nas políticas públicas, considerando o papel dos grupos incivis na construção dessas narrativas.
PROTEÇÃO DE DADOS PESSOAIS
A ética orienta todo o processo de pesquisa: respeito à LGPD, minimização de dados pessoais, governança e segurança da informação, e avaliação de risco em conteúdos sensíveis. Priorizamos transparência metodológica, triangulação entre fontes e técnicas, e documentação de limitações.
DOS DADOS À EVIDÊNCIA ÚTIL
Transformamos achados em produtos voltados a diferentes públicos:
- Notas Técnicas (sínteses rápidas com evidências e recomendações);
- Relatórios de pesquisa e policy briefs;
- Materiais públicos (posts e vídeos explicativos baseados nas NTs);
- Apoio a formuladores: insumos para desenho, implementação e avaliação de políticas, comunicação pública e alfabetização midiática.