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Dossiê | Construindo inimigos climáticos

O estudo revela que, nas comunidades conspiracionistas brasileiras do Telegram, a desinformação climática não recuou, apenas mudou de roupagem. Entre 2018 e 2026, o conteúdo que antes circulava em tom abertamente combativo e panfletário passou, a partir de 2023, a se apresentar com a aparência sóbria do jornalismo, o que torna seu teor desinformativo mais difícil de reconhecer e mais fácil de compartilhar. Nesses espaços, o clima quase nunca aparece como problema ambiental: ele entra como arma na disputa política entre Lula e Bolsonaro, como suposta prova de hipocrisia dos adversários ou como sinal de um suposto plano de controle mundial. Trata-se de um processo que a nota descreve como colonização semântica; não a negação do vocabulário científico, mas sua captura e reinversão de valência: termos como mudança climática, Agenda 2030 e carbono são reposicionados para conotar dominação estrangeira, hipocrisia de elites e perda de soberania. É por isso que checagens que corrigem afirmações factuais isoladas têm eficácia limitada, pois operam sobre pontos da cadeia sem desestabilizar a arquitetura semântica que os sustenta. As enchentes do Rio Grande do Sul, com 640 menções, são o desastre mais citado de todo o material. Em 2026, em pleno ano de campanha, 62% das postagens analisadas combinam o uso político de desastres climáticos com tom de naturalidade e formato de notícia.

Disponível em português: https://zenodo.org/records/21175524

Disponível em inglês: https://zenodo.org/records/21175850