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Dossiê | A machosfera é política

Este dossiê analisa a dimensão política da machosfera brasileira no Telegram. A partir de uma base de 85 comunidades brasileiras, combinamos métodos mistos: uma análise quantitativa de menções a Jair Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva, por meio de séries temporais, e uma Análise Crítica do Discurso de conteúdos selecionados por sua relevância analítica. Os resultados indicam que a machosfera é política, tanto pela recorrência de conteúdos sobre lideranças e clivagens partidárias quanto pela circulação de repertórios morais, antigênero, anti-institucionais e anti-esquerda que estruturam sua ideologia política. Essas dinâmicas atravessam as cinco subcategorias de comunidades analisadas, mostrando que a política não se restringe a grupos explicitamente voltados ao debate político. Observamos ainda que o apoio ou a rejeição a lideranças políticas é frequentemente mediado pela gramática da própria machosfera, que mobiliza categorias como incel, honk pill, red pill e macho alfa para interpretar figuras públicas. Além disso, identificamos ataques sistemáticos a políticas de gênero, especialmente à Lei Maria da Penha, à educação sexual e ao aborto, frequentemente apresentados como evidência de perseguição aos homens, ameaça à família e expressão de uma ordem social capturada pelo feminismo. A misoginia aparece articulada a racismo, classismo e LGBTfobia, podendo escalar para discursos extremos de violência, extermínio e controle reprodutivo. Em conjunto, os achados sugerem que a machosfera funciona como espaço de socialização ideológica, produção de inimigos morais e políticos e deslegitimação de políticas públicas voltadas à proteção e à igualdade de gênero.

Disponível em português em: https://doi.org/10.5281/zenodo.19197715

Disponível em inglês em: https://zenodo.org/records/19197783